... permeada de notas musicais e pinceladas coloridas
O ano era 1978; na Argentina, a ditadura comandava e a Escola de Belas Artes estava sob intervenção militar. Ele esperou a conclusão do curso e de posse do seu diploma, vendeu os seus bens: uma geladeira, uma cama, um fogão de duas bocas à querosene e um gato asmático, companheiro de muitas batalhas.

Portando uma mochila e um violão no ombro, pegou carona com um conjunto de música latino-americana que estava saindo do seu pais em turnê pelo mundo, sem data para voltar. Percorreu a América latina com o grupo; começou pela Bolívia; depois foram para o Peru, Equador, Venezuela e os paises do Caribe. Fizeram apresentações em locais inusitados, desde as feiras livres até as universidades.

Chegaram finalmente ao México onde a banda se dispersou, por motivos diversos; alguns tentaram entrar na Yankilândia (risos); outros foram para a Europa; ele e um amigo flautista decidiram descer pelas Guianas e entrar no Brasil pela Amazônia. Depois de infinitas peripécias e aventuras fantásticas, finalmente, chegaram à Bahia, atraídos pela musica e pelas belas morenas (ele acredita que as mulheres tiveram um peso maior na balança).

Nessa época, 1980, ele tinha 25 anos e a vida parecia-lhe simplesmente mágica; ainda havia carnaval em Salvador – hoje é completamente diferente - e os trios tocavam frevo, diz ele. Naturalmente fez muitos amigos, principalmente músicos; morava na Boca do Rio e, nessa época, Caetano, Gil , Luis Melodia, Os Novos Baianos, entre outros, se reuniam num bar chamado “Bate Papo” perto da sede do Esporte Clube Bahia, onde sempre aconteciam jam session, das quais ele participava timidamente. Começou a tocar profissionalmente, às quartas feiras, no legendário bar ''O Vagão'' - na realidade um verdadeiro vagão de trem - que ficava na rua Bartolomeu Gusmão, entre o Rio Vermelho e a Federação, e ficou muito amigo dos proprietários do local: Gini Zambelli - um guitarrista genial - e Klaus Jake, um saxofonista extraordinário, hoje falecido. Eles o acolheram carinhosamente nesse ambiente, ponto de encontro da elite musical da época.

Viveu em Salvador até 1985. Além de músico, também desenvolvia o lado artístico. Há um tempo atrás encontrou Gini Zambelli em Salvador e este lhe mostrou um pequeno cartaz publicitário do Vagão, confeccionado por ele, onde aparecia a incrível banda de latin-jazz ''Cameleon'', cujo percussionista era Carlinhos Brown (ainda um menino) e Fred Dantas, hoje maestro reputado, ainda no início da sua carreira como trombonista.
Mas em 1985, nasceu a sua filha, Aloma, e ele decidiu que era hora de mudar o rumo da sua vida; nessa época foi inaugurada em Feira de Santana, uma emissora da Globo – a TV Subaé - e ele candidatou-se ao posto de diretor de arte; trabalhou por lá durante quatro longos anos. Nesse período conheceu muita pessoas interessante, intelectuais e artistas. Criou um cartaz de divulgação para a Micareta de Feira, conquistou o primeiro lugar e afirmou-se como artista. Daí em diante, tudo ficou mais fácil; exposições, prêmios, a criação da Oficina de Arte Contemporânea, ao lado de Juraci Dórea e a possibilidade de trabalhar como professor de pintura no Centro Cultural Amélio Amorim. Depois da inauguração do CUCA transferiu-se para lá e continua a desenvolver trabalhos como professor de pintura e desenho. Além das artes plásticas, sua principal atividade, Galeano toca, atualmente, no conjunto musical "Gatos Pingados", cujo foco é a música instrumental brasileira
Esta é a história de Jorge Abel Galeano, argentino de nascimento, baiano de coração, feirense por adoção.

Galeano - Percepções Mágicas
Pelo artista plástico e crítico de arte, César Romero
Prêmio Gonzaga Duque - 2004 - ABCA-AICA
Jorge Galeano nasceu em Concórdia, Argentina, no ano de 1953. Morou em Buenos Aires, onde estudou desenho.
Viajou pesquisando, fazendo anotações e expondo pela América do Sul. Vivenciou culturas de seu país de origem, Paraguai, Uruguai, Bolívia, Peru e Brasil. Chegou a Salvador em 1980, oito anos depois fixou-se em Feira de Santana e hoje mora numa chácara a 10 km da cidade. Com essa experiência se deu a fusão de duas culturas a Andina e a Sertaneja. Estas ações justificam seu trabalho.
As percepções mágicas e rutilantes, seu ideário metafísico podem evocar Juan Rulfo em Pedro Páramo e Guimarães Rosa em "Grande Sertão: Veredas". É nessa atmosfera - de um outro lugar - que se situa sua pintura.
Luzes e contrastes, entonações, sutilezas, vão dando identidade a personagens. O Sertão e os Andes se somam e se confundem, num exercício de ternura, numa anexação amorosa.

Cromatismo riquíssimo, superposição, contrastes, refrações, ajustes, combinações - a cor emocional - um universo mítico e envolvente. O sol do Sertão, o sol Andino,as reminiscências, caleidoscópio mágico, sucessões cambiantes, estórias sonhadas e as prometidas.
Galeano pinta seu entorno do ponto de vista plástico e ideativo. Na chácara um tempo derramando lentamente, ler, refletir, pintar na calmaria bucólica da terra. Os grandes e longínquos horizontes, os rios de águas buliçosas, o pingar das chuvas, o pôr-do-sol que não espera, a vitória das manhãs, os ventos de continuada passagem, os céus estelares e o Homem.
O trabalho: inventar um novo rumo para as coisas, acontecimentos, transmutar os achados da memória, os guardados arquétipos. Pintura - sonho e ação.
As lendas da infância e das cercanias do hoje, as casas de sapé, a caatinga exuberante parida da chuva. Os violeiros cantadores, a melancolia do tango, as festas populares, a solidão dos pampas, as coisas se fundindo num redemoinho constante e plural. Colcha de retalhos, o pulsante coração Latino-Americano: as questões do pintor.

